Zoológico do Rio: privatizar ou fechar as portas?

Multado pelo Ibama e sem verbas para reformas urgentes, Zoológico do Rio enfrenta um futuro incerto. É possível resgatá-lo da penúria?

Zoológico do Rio: privatizar ou fechar as portas?
Ibama retrata o descaso que viu em sua última vistoria do zoológico (Foto: Ibama)

O Jardim Zoológico do Rio está abandonado há tantos anos que seu estado de penúria já deixou de ser notícia. Enquanto a prefeitura da cidade se prepara para inaugurar o maior aquário da América do Sul em tempo para as Olimpíadas, o futurístico AquaRio, seu zoológico — o mais antigo do Brasil, ilhado na antiga residência da família imperial, nos fundos da Quinta da Boa Vista –, encara um futuro incerto. Pressionada a fechá-lo por um grupo crescente de políticos locais, grupos de defesa dos animais e antigos frequentadores, a prefeitura anunciou este ano que está estudando uma saída de longo prazo: a entrega do zoológico à iniciativa privada. Caso contrário, seu fechamento parece inevitável.

Não é à toa. Aquela parte da memória do Rio está entregue às baratas e aos urubus, enquanto os legítimos inquilinos do zoológico são expostos em recintos pequenos e sem qualquer ambientação. O relatório da última vistoria do Ibama mostra que faltam troncos ocos, tocas e folhagens densas onde os bichos possam se refugiar em momentos de estresse. Muitas grades e portões estão corroídos pela ferrugem e suas travas de segurança emperradas.

Os primatas estão confinados em uma área que é metade do que a legislação preconiza, e a área seca disponível para o urso pardo é pequena até para os padrões de zoológicos brasileiros. Quanto aos bichos peçonhentos, não há fichas nas caixas de alojamento com informações para o público sobre os animais. Para piorar, o lixo se acumula aos fundos da Fundação, atrás dos espaços destinados aos felinos, onde deveria haver uma caçamba da Comlurb.

O Viveirão dos pássaros está interditado à visitação há mais de cinco anos, embora o espaço ainda abrigue dezenas de animais com risco de fuga. O Corredor de Fauna também não foi reformado, uma exigência que o Ibama vem fazendo desde 2013. O setor Extra — uma parte interna do zoológico, para onde são levados os animais brigões ou estressados — e o núcleo de reprodução de felinos e saguis tiveram de ser parcialmente esvaziados por falta de reformas.

Fiscais do Ibama em vistoria às partes internas do zoo (Foto: Ibama)
Fiscais do Ibama em vistoria às partes internas do zoo (Foto: Ibama)

O Ibama vem apontando essas violações de normas ambientais e exigindo reformas da Fundação Zoo, que administra o zoológico, há pelo menos três anos. O órgão elaborou uma dezena de pareceres com suas exigências e chegou a proibir o zoológico de comprar novos animais a partir de 2012. Também encaminhou o caso ao Ministério Público Federal e notificou a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Smac) a apresentar um projeto executivo das reformas até 1º de agosto deste ano. Egotado o prazo, no início deste mês a Smac foi multada em R$ 1 milhão por descumprimento.

O fato é que até a Smac parece ter vergonha do zoológico. Procurada pelo ON para esclarecer se pretendia recorrer da multa e começar a cumprir as exigências do Ibama, o órgão disse que o assunto não é da sua alçada, “devendo ser encaminhado à Fundação Rio Zoo, que tem presidência, repasses próprios e assessoria de imprensa”. Uma rápida navegada no site da prefeitura, no entanto, revela que a Smac também é responsável pelo o que ocorre no zoo, uma vez que a Fundação RioZoo está subordinada a ela.

E agora?

O Ibama diz que o próximo passo pode ser outra multa pesada, embargo, ou até mesmo o fechamento do zoológico. Pressionada a apresentar uma solução rápida, a prefeitura anunciou em junho a escolha de uma empresa para fazer estudos técnicos e de viabilidade econômica, visando a entrega do zoológico a uma empresa privada em regime de concessão ou parceria publico-privada.

A empresa escolhida para fazer os estudos foi a Cataratas do Iguaçu, a mesma que vai administrar o AquaRio, além de já cuidar do parque de Fernando de Noronha, Foz do Iguaçu e Floresta da Tijuca. O estudo já ficou pronto e a prefeitura diz que falta apenas “revisar os números”. A Secretaria de Concessões e Parcerias da prefeitura promete divulgar detalhes do projeto “nos próximos dias” e abrir uma licitação “ainda este ano”. O Grupo Cataratas está de olho no negócio.

Uma equipe técnica de primeira

Há um lado positivo nessa historia deprimente. Apesar da longa lista de irregularidades encontradas no zoológico, o Ibama garante que os animais não estão sofrendo maus-tratos. Em conversa com o ON, um porta-voz do Ibama teceu elogios  à equipe técnica que cuida dos bichos. Destacou que, apesar da falta de estrutura e de manutenção dos espaços, não faltam funcionários dedicados, comida ou remédios para os bichos.

Então, por que os frequentadores reclamam tanto da aparência dos animais? Não é incomum ouvi-los dizer que os animais parecem letárgicos, dopados ou deprimidos. Em entrevista ao ON, um funcionário do zoo que não quis se identificar defendeu o trabalho da equipe técnica e argumentou que falta informação às pessoas sobre a natureza dos animais, o que explicaria a decepção de muitos quando chegam e não veem comportamentos que geralmente associam aos bichos.

“As pessoas chegam aqui atrás de entretenimento, querem ver os animais do filme Simba. Reclamam que os felinos só dormem, mas felinos são bichos noturnos. Ou que o mato está alto, mas para os animais mato alto é um lugar para se esconder”, explica. “Hoje não temos leão, girafa ou hipopótamo, mas temos uma diversidade enorme, mais de 2 mil animais”.

Dois anos atrás, eram quase 3 mil.

Reynaldo Velloso acha “ótimo” que as pessoas estejam reclamando da ausência de animais exóticos de grande porte. Ele é presidente da Comissão de Proteção aos Animais da OAB do Rio e tem vistoriado o zoológico desde que o Ibama envolveu o Ministério Público na questão dos atrasos nas reformas, em 2014. Ao ON, Reynaldo diz que considera os bichos “animais não-humanos”, para os quais a liberdade  é um bem maior. Ele é contra o próprio conceito de zoológico e acharia aceitável apenas se o zoológico fosse transformado em santuário, sem espaços de confinamento. No curto prazo, defende o fechamento do zoológico e a transferência dos animais para santuários espalhados pelo país.

Após vistoriar o zoológico no início deste mês, a vereadora do Rio Teresa Bergher prometeu marcar uma audiência pública na Câmara Municipal para denunciar o que viu. Em seu perfil no Facebook, divulgou um relatório da vistoria intitulado “zoológico dos horrores”.  “A cidade que tem um Museu do Amanhã e um aquário do futuro tem também um zoológico do mais remoto passado. Para ficar ruim, o zoo tem que melhorar muito”, lamenta.

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