Tempestades na capital causa alagamento de 60 casas em Itapuã.

Jorge Gauthier e Tatyanna Hayne | Redação CORREIO

Os trovões anunciaram a invasão da água misturada com lixo, esgoto e lama nas casas da comunidade Baixa da Soronha em Itapuã. Rios de dejetos dentro dos domicílios, locais onde ratos e baratas navegaram ilesos. Em poucos minutos, cerca de 60 famílias viram seus pertences boiando na rua.

No desespero, a cama foi o único porto seguro para as crianças da família Souza Mendes, que acordaram assustadas com a forte chuva que caiu em Salvador na manhã de terça-feira (23). Um morador chegou a ser demitido, pois trocou o dia de trabalho pela salvação dos poucos objetos que resistiram às águas.

Mas o caos poderia ser evitado. Pelas ruas da comunidade, as manilhas abertas indicavam o planejamento de obras de infraestrutura prometidas pela Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Conder) há mais de três anos. O projeto, orçado em R$ 22 milhões, com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), ainda está em fase de análise de orçamento pela Caixa Econômica Federal.

Desespero
Apenas nas primeiras horas de ontem (23), segundo dados da Defesa Civil, choveu 15% de todo volume de chuvas esperadas para o mês de março na capital. E qualquer chuva põe os moradores da Soronha em alerta. Desde o desenvolvimento do projeto, eles vivem na esperança de não precisar mais perder seus bens a cada temporal.

“Dessa vez perdemos os móveis e a geladeira já está queimada. Meus filhos ficaram sem roupas e minha casa tem um rio dentro”, relata a dona de casa Raquel Souza Mendes, 23 anos, que ao primeiro sinal da chuva abrigou os três sobrinhos nas camas mais altas da casa onde vivem três famílias, com oito crianças entre 1 e 5 anos. “Já são sete anos nesse sofrimento. Quando chove muito aqui, perdemos muita coisa”. Se a chuva é forte, as viagens de balde não adiantam mais. A água rapidamente alcança a altura dos joelhos. Ontem (23), uma bomba emprestada da Conder foi usada para tirar a água mais rápido.

Desemprego
O alerta dos trovões salvou a vida, mas não garantiu a manutenção da casa nem do emprego do auxiliar de serviços gerais Roque Jesus dos Santos. Enquanto retirava a lama e tentava, em vão, salvar alguma peça de roupa, ele foi demitido pelo chefe. “Fui demitido porque não posso largar minha casa e família aqui. Não tenho nem o que vestir. Nós perdemos tudo”, lamentava Roque enquanto andava dentro da casa com lama na altura dos joelhos.

A casa de Roque com a cozinheira desempregada Joane dos Santos Cavalcante foi invadida pela encosta que desabou. “A sorte é que a gente já estava de pé por causa do temporal, senão todo mundo estaria morto”, relata Joane que mora na casa com o esposo e dois filhos de 1 e 5 anos.

Revolta
Na porta de outra casa da Travessa Mandacaru, se equilibrando num batente alto de cimento, o aposentado Renato Pires, 73 anos, reclamava dos planos não executados da obra da Conder. O órgão informou que enquanto a Caixa não libera a verba para reformulação da infraestrutura da comunidade, vem realizando intervenções emergenciais. A última ocorreu há quatro meses com o objetivo de fazer a limpeza de canais para evitar alagamentos no bairro. Em vão.

O aposentado diz que as obras emergenciais só atrapalham ainda mais a comunidade.“ Eu torei meu joelho na obra e estou aqui com minha muleta na lama”, afirma Pires que fez uma cirurgia após se machucar em uma das obras feitas em 2008. A líder comunitária Rilza Costa Gallo, que mora na sexta travessa, explica que a comunidade foi contemplada pelo Governo Federal com essa obra do PAC, mas que ainda não houve benefícios efetivos. “Prometeram urbanizar tudo com essa obra. Fomos na Conder e ninguém recebe a Comissão da Soronha”, reclamou Rilza.

Moradora do local há 30 anos, Rosenita Reis, 67 anos, a dona Sinhá de Itapuã, já teve a casa reconstruída três vezes. “Aqui não é brincadeira não. Uma chuvinha e a gente tem que andar de canoa. Não compro mais nada. Geladeira, fogão e sofá. Tudo aqui é dado. Nesse sofrimento, é recebendo água e perdendo tudo. Comprar pra que se a chuva leva tudo?”, questiona.

Conder não tem previsão para obras
Ainda não há prazo para o início das obras de infraestrutura na comunidade da Baixa da Soronha. Segundo a Companhia de Desenvolvimento Urbano (Conder), o projeto, orçado em R$ 22 milhões, precisa ser aprovado pela Caixa Econômica.

Após isso, entra em fase de licitação e depois de execução – o que deve durar pelo menos 18 meses. No projeto, estão previstas obras de infraestrutura, habitação e construção de equipamentos urbanos coletivos, a exemplo de escolas, áreas de lazer e serviços de saúde. Estima-se que aproximadamente 12 mil pessoas, de 2. 420 famílias, serão beneficiadas.

Mas a obra é o motivo de revolta na comunidade, principalmente nos dias chuvosos. Com os carrinhos de mão cheios de lama, baldes de água e lixo, os moradores passam pela rua gritando indignados. “Até agora não vimos a cor desses R$ 22 milhões do PAC”.

O que fazer
Fique longe das janelas
Correntinhas de metal ou outros adereços do mesmo material podem atrair raios

Evite locais abertos
Evite ficar em áreas descampadas, como praias e campos de futebol. Como o terreno é plano, você pode virar para-raios

Desconecte a TV
A antena externa de TV pode funcionar como para-raios. Por isso, deve desconectar a televisão

Evite falar ao celular
Não fale ao celular ou use aparelhos eletrônicos fora de casa. Eles atraem os raios. Na rua, procure abrigo

Para-raios de superstições
Quando a tempestade desaba e os raios começam a riscar o céu de Salvador, a aposentada Nilza de Jesus automaticamente repete o ritual executado ao longo de seus 75 anos de vida. O primeiro passo para evitar que um raio despedace a casa onde mora há 16 anos com o marido, o aposentado José Petronilho, 67, em Mussurunga, é cobrir todos os espelhos, aparelhos eletrônicos e até José.

Segundo os ensinamentos de sua mãe, homem sem camisa em tempestade é mais atraente para raio que para mulher. Por último, ela tira todos os eletrodomésticos das tomadas. “Tenho medo de um raio cair na casa e eu morrer esturricada. Já vi muita vaca queimada em baixo de árvore”, contou.

Na casa de Adriana Sena, 23, também em Mussurunga, as superstições dão mais trabalho. Depois de cumprir o mesmo ritual de Nilza, a família se reúne bemquietinha na sala. “Todo mundo senta no sofá. Não pode se mexer, conversar nem levantar até parar”, disse.

A avó ensinou ainda a desenhar uma cruz de carvão na testa de quem não for batizado. Segundo o meteorologista Heráclio Alves, do Instituto de Gestão de Águas e Clima da Bahia, neste período do ano, os raios são comuns por uma combinação de fatores. “As altas temperaturas, a alta umidade e os ventos provocam instabilidade, relâmpagos e raios”. Em casa, o fundamental é não ficar na janela, não tomar banho e desconectar a TV.

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