Ribeirão Pires sobre os trilhos da história

Camila Galvez
Do Diário do Grande ABC

Atualizada em 23 de março, às 15h41

Era 1º de março de 1885 quando a estação Ribeirão Pires passou a funcionar naquela pequena vila afastada do Centro de São Paulo. Fazia parte da estrada de ferro Santos-Jundiaí, da SPR (São Paulo Railway), idealizada pelo Barão de Mauá para transporte do café entre as cidades do interior e o porto de Santos. Foi ao redor daquele pequeno galpão de madeira com trilhos à frente e muito mato em volta que nasceu a Ribeirão Pires que completou, no dia 19, 61 anos da emancipação político-administrativa.

A vila fazia parte da freguesia de São Bernardo. Era basicamente composta por imigrantes italianos, que escoavam a produção agrícola, além dos tijolos e pedras que ajudariam a construir a Capital. Os produtos eram transportados em sua maioria por carroças, que faziam fila diante da estação para embarcar os itens. Mais tarde, receberia também japoneses, ingleses, sírios e, já nos anos 1960 e 1970, migrantes nordestinos para trabalhar nas indústrias da região.

Apesar do foco no transporte de carga, os passageiros também eram beneficiados, como explica o secretário adjunto de Cultura da cidade, Marcílio Duarte. “Inicialmente havia dois horários para transporte dos moradores, um pela manhã, que levava à Capital, e outro à tarde, que trazia de volta ao vilarejo.” Só a partir de 1890 é que a viagem passou a ser realizada aos fins de semana.

O vice-presidente do Instituto do Patrimônio do ABC, Adalberto Dias, explica que o meio de transporte era considerado caro pelo pouco que oferecia. “Não era para todos, mas também não havia conforto. Eram bancos duros, de madeira, e as composições não eram exclusivas de passageiros. Geralmente era um único vagão para pessoas, que vinha na parte de traz da composição de carga.”

Dias lembra que apenas com o passar do tempo e o aumento da demanda de passageiros é que os trens se tornaram mais confortáveis, sendo que a viagem pela ferrovia chegou a ser considerada boa para a saúde, conforme notícia publicada em 1890 no Diário Popular: “(…) existem nas proximidades da cidade (São Paulo) bairros salubres, como a estação de percurso da linha inglesa, como Rio Grande da Serra, Ribeirão Pires, Pilar (depois Mauá), São Bernardo (depois Santo André) especialmente, que se tornam tão notáveis pela proximidade de São Paulo e pela beleza de sua situação, como por suas condições muito especiais de salubridade (…)”

COSTUMES

Homens e mulheres aguardavam o trem, que muitas vezes atrasava, em lugares separados. Elas ficavam na sala das senhoras, com banheiro exclusivo, a falar sobre assuntos de casa e da família. Já eles permaneciam com seus charutos e discorriam sobre política local e nacional. Tinham o mictório público a disposição em caso de necessidade. Todas estas construções, além do armazém e da agência de bilheteria, fazem parte do conjunto ferroviário que completou 130 anos neste mês, um dos únicos da região que ainda preserva a arquitetura original inglesa, segundo Duarte. “A estação foi feita para durar séculos, com material de extrema qualidade. O aço das estruturas veio de Glasgow, na Escócia. As telhas são francesas. A madeira é pinho de riga, originária da Inglaterra. Trata-se de um tipo de arquitetura fabril, inspirada na Revolução Industrial, mas que não abre mão dos ornamentos, como os florais vitorianos, influentes na época.”

Curioso é que apesar do inegável desenvolvimento que a ferrovia trouxe à cidade, a arquitetura inglesa da estação não influenciou as construções. “Temos características dos vilarejos portugueses e italianos e também um pouco de art deco. Isso se deve a uma característica peculiar do povo inglês, que vinha para o Brasil, mas não misturava sua cultura com as que encontrava por aqui”, diz o secretário.

A atual estação ferroviária de Ribeirão Pires foi erguida em 1912 e tombada pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico) em 21 de junho de 2010, pelo ofício 1420/2010 do processo 60313/2009. “É inegável o desenvolvimento trazido pelo trem para Ribeirão. Foi ao redor da estação que a cidade se desenvolveu e chegou ao que é hoje”, garante Dias.

Conjunto ferroviário deve ser destinado à Cultura

Aos 130 anos, a estação de Ribeirão Pires, que integra a Linha 10-Turquesa da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) pode ganhar novo uso. A CPTM, que possui a outorga do conjunto ferroviário, que pertence oficialmente à União, tem projeto para reconstruir e modernizar a estrutura, preservando a atual e destinando o patrimônio ao uso cultural, com a passagem para as mãos da Prefeitura.

O secretário de Cultura da cidade, Marcílio Duarte, explica, porém, que isso depende de aprovação do governo federal, já que estima que o complexo tenha valor superior a R$ 1 milhão. “Nestes casos, é preciso a aprovação da União.”

Com a alteração, a estação se tornaria ponto de história e memória da cidade. “É algo bom para a Prefeitura no sentido de que é um local estratégico para o turismo. Queremos fazer espaço de visitação seguindo o modelo das antigas estações de Itu e Santa Rita do Passa Quatro, no interior paulista.”

A reconstrução, porém, ainda não tem data para sair do papel, já que depende, segundo a CPTM, de liberação do recurso por parte da Caixa Econômica Federal, por meio do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) Mobilidade. A nova estação será erguida ao lado do Terminal Municipal de Ônibus e prevê a ligação entre os dois modais, por meio de passarela para pedestres. O investimento estimado é de R$ 77 milhões. A edificação terá plataformas cobertas, escadas rolantes e todos os itens de acessibilidade (elevadores, piso e rota táteis, comunicação em braile, corrimãos e rampas adequadas), além de banheiro público comum e exclusivo para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.

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