Pinheiro tenta desatar nó dos Correios

André Borges e Cristiano Romero

Depois de passar pelas mãos de seis presidentes durante os oito anos do governo Lula, os Correios chegam à gestão da presidente Dilma Rousseff com um novo comando. Wagner Pinheiro, que presidiu por oito anos a Petros, o fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, foi escolhido pessoalmente por Dilma para dar um rumo mais transparente à Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) e resolver problemas urgentes da estatal, como o impasse entre a empresa e sua rede de franquias, o déficit de mão de obra e a contratação dos serviços de companhias aéreas, além do novo parceiro que irá operar o banco postal.
Uma semana atrás, Pinheiro estava de malas prontas para fazer um curso de aprimoramento no idioma inglês em Londres, quando recebeu uma ligação do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, agendando um encontro com Dilma. Esta semana, Pinheiro limpou as gavetas de sua mesa no escritório da Petros, no Rio de Janeiro, e seguiu para Brasília, onde, por enquanto, mora em um hotel.

O executivo, que tem vínculos com o Partido dos Trabalhadores (PT), teve pouco tempo para tomar o pulso de toda a empresa, que ele prefere chamar de “uma das maiores empresas de logística do mundo”. Segundo ele, é a segunda maior empregadora do país, com 108 mil funcionários, atrás apenas da Brasil Foods. Apesar disso, as primeiras ações já estão fechadas.

Em entrevista ao Valor, o novo presidente dos Correios informou que fará, até junho, licitação para escolher o novo gestor do serviço de banco postal da estatal. O contrato atual, que rende cerca de R$ 340 milhões do total de R$ 13,5 bilhões da receita anual da ECT, está nas mãos do Bradescoe vigora até dezembro. Pinheiro informou que vai reavaliar os benefícios do contrato para a próxima licitação.

Pinheiro avalia que o banco postal funciona bem, em termos de acesso da população aos serviços. Agora, ele pretende analisar o seu desempenho do ponto de vista de geração de resultados à estatal. “Vamos avaliar se, para [o banco postal] continuar fazendo isso, está bom para a ECT do ponto de vista empresarial. Não há nenhuma dúvida de que o serviço continuará a ser prestado em janeiro de 2012, mas haverá a licitação”, esclareceu.

O novo presidente revelou que, a partir de agora, o prazo de contratação de empresas de carga aérea subirá de um ano para cinco anos. O prazo curto dificultava a atuação das companhias aéreas, que tinham dificuldades em fazer investimentos de longo prazo devido à falta de garantia de que continuariam a prestar serviços para a estatal. O novo estatuto da ECT, segundo Pinheiro, prevê a possibilidade de que, no futuro, a empresa também possa criar a sua própria subsidiária de transporte aéreo, embora esta não seja a prioridade agora.

O estatuto dos Correios está sendo totalmente reformulado e, daqui em diante, a estatal passará a publicar balanços anuais, como fazem as empresas de capital aberto. A ideia é dar transparência à gestão da empresa, que nos últimos anos se viu envolvida em escândalos de corrupção. Duas novas vice-presidências serão criadas (jurídica e de tecnologia da informação).

A presidente Dilma deu pessoalmente a Pinheiro a missão de melhorar a gestão da ECT. Uma das principais tarefas será aumentar a participação das encomendas nos resultados da empresa – hoje, esse segmento responde por 30% das receitas.

Pinheiro confirmou que as 1.424 franquias serão licitadas em junho, portanto, não haverá novo adiamento. Atualmente, apenas 400 franquias estão em situação regular.

Dentro do plano de fortalecimento da empresa, a ECT fará concurso este ano para contratar sete mil funcionários. Eis os principais trechos da entrevista:

Valor: O senhor está satisfeito com o desempenho do banco postal, criado em parceria com o Bradesco?

Wagner Pinheiro: O contrato termina em dezembro deste ano. Em junho, vamos fazer uma nova licitação. Já há uma experiência de nove anos dessa parceria com o Bradesco. Temos um histórico suficientemente grande para ver o que funcionou bem e o que não funcionou, o que dá para exigir na nova licitação.

Valor: O senhor já tem uma avaliação?

Pinheiro: Ainda não, mas temos tempo para fazer isso. Vamos começar a fazer essa avaliação agora, discutir na diretoria e levar para o conselho porque é um tema estratégico. A nova licitação será feita em junho. Do ponto de vista do oferecimento do serviço do banco postal para a população, o acesso ao serviço bancário, eu acho que o [contrato] é ótimo. Agora, vamos avaliar se, para continuar fazendo isso, está bom para a ECT do ponto de vista empresarial. Não há nenhuma dúvida de que o serviço continuará a ser prestado em janeiro de 2012, mas haverá a licitação.

Valor: O banco postal responde por quanto das receitas da ECT?

Pinheiro: É uma receita pequena, cerca de R$ 340 milhões. É pequena em comparação com o faturamento total da ECT, de R$ 13,5 bilhões em 2010. Mas é significativa. Tem muita empresa nas 500 maiores do país que não faturam R$ 300 milhões por ano.

Valor: O senhor chega à diretoria dos Correios com a missão de resolver a situação da estatal com a rede de franqueados que hoje opera sem licitação. Como pretende lidar com essa situação?

Pinheiro: O prazo para resolver esse impasse com as franquias é junho. Nós vamos retomar esse processo e faremos as licitações. Esta é uma prioridade apontada pelo ministro Paulo Bernardo [das Comunicações], que determinou que cheguemos a uma solução com os franqueados com a máxima urgência.

Valor: O problema central entre os Correios e suas franquias está na revisão de remuneração que a estatal propõe para as lojas, que passariam a receber menos para prestar os serviços. Os franqueados se negam a aceitar essa revisão. O senhor vê espaço para renegociar essa proposta?

Pinheiro: Acho muito difícil. Nosso trabalho aqui é o de aprimorar os processos dos Correios e procurar melhorar ao máximo as condições financeiras da empresa. Se já havia uma visão de que era preciso pagar menos por um serviço em relação ao que vinha sendo pago, isso é resultado da experiência que foi acumulada. Essa decisão não foi tomada a troco de nada. A experiência dos últimos anos mostrou que, em alguns casos, a ECT está de fato pagando mais aos franqueados do que deveria.

Valor: Poderá haver um novo adiamento da licitação das franquias atuais, que foram concedidas sem licitação?

Pinheiro: De jeito nenhum! Temos tempo para retomar o processo e faremos as licitações. Além disso, temos outra prioridade apontada pelo ministro Paulo Bernardo, que é a realização de um novo concurso público, o que deveremos fazer com mais facilidade.

Valor: Qual é o déficit atual de mão de obra dos Correios?

Pinheiro: Temos 7 mil vagas, mas o déficit é maior, próximo de 13 mil vagas. Há, inclusive, um pedido de aumento de vagas ao Ministério do Planejamento. Desse total que contrataremos, 90% são pessoas de áreas operacionais, como carteiros e pessoal de triagem.

Valor: Quando deve ser realizado o novo concurso?

Pinheiro: Em dezembro houve uma audiência pública sobre o concurso. Até o próximo dia 24 devemos ter a liberação para publicação do edital.

Valor: Havia um imbróglio jurídico envolvendo o concurso anterior, vencido pela Fundação Cesgranrio. Qual foi a solução dada a esse concurso?

Pinheiro: Foi cancelado, embora a última decisão judicial tenha sido a favor dos Correios para que o processo prosseguisse. Foi decidido, no entanto, que seria feito um novo concurso.

Valor: Os atuais contratos de transporte aéreo de carga dos Correios vigoram por apenas um ano, dificultando os investimentos de longo prazo das empresas que prestam o serviço e da própria estatal. Isso será alterado?

Pinheiro: Sim. Nosso objetivo é trabalhar para que esses contratos sejam mais longos. Já foi feita uma audiência pública sobre o novo modelo da malha aérea e já está previsto que os contratos sejam de cinco anos. Essa mudança vai nos ajudar a lidar com a dificuldade desse mercado de carga, que é muito restrito. O edital já está pronto e deve estar na rua em breve.

Valor: Seus antecessores discutiram a possibilidade de os Correios abrirem uma subsidiária de transporte aéreo. O senhor pretende retomar esse assunto?

Pinheiro: Na reforma do estatuto que aprovamos no Conselho de Administração esta semana, e que agora segue para tramitação na Casa Civil, para depois ser publicado como decreto, abre-se a possibilidade de os Correios terem subsidiárias. É uma questão em aberto, nós vamos discutir, não fecharemos essa porta. Agora, é preciso reconhecer que essa é uma questão complexa porque trata da criação de uma nova empresa, o que requer uma nova estrutura operacional.

Valor: Muitas companhias privadas internacionais operam com frota própria.

Pinheiro: Sim. Tratamos desse assunto nas discussões do novo estatuto. As reuniões contaram com participação dos ministérios e dos Correios, com apoio do Dest (Departamento de Coordenação e Controle das Empresas Estatais do Ministério do Planejamento). Chegamos à conclusão de que valeria a pena fazer uma reforma ampla que incluísse essa possibilidade, mas é algo que temos de avaliar.

Valor: Os Correios têm hoje o monopólio da entrega de cartas simples no país, mas concorrem com a iniciativa privada pela entrega de encomendas, uma fatia bem mais rentável. Como se dará a disputa por esse mercado?

Pinheiro: Hoje, os Correios têm algo como 28% ou 30% do mercado de encomendas do país. Esse mercado responde por um terço da receita da empresa, enquanto os outros dois terços ficam por conta de entregas simples. Nós temos que inverter isso, fazendo crescer a entrega de encomendas. Este é o desafio. Fortalecer esse setor.

Valor: Mas por que a ECT vai entrar num mercado que já tem concorrência no setor privado?

Pinheiro: Todo o mundo reclama de monopólio. Por que uma empresa pública não pode participar de um mercado concorrencial? A sobrevivência da empresa depende disso. Além do mais, encomenda é o negócio dos Correios. Nós temos capacidade, disposição e preço para disputar. Vamos disputar, sim! O nosso monopólio é na área de entrega de cartas, que é muito difícil, mas é essencial para a nação.

Valor: A operação de cartas dá lucro?

Pinheiro: Sim. Só a ECT tem 12 mil pontos de atendimento, incluídas as franquias. Temos 6 mil agências próprias e estamos presentes em todos os municípios do país.

Valor: O senhor recebeu alguma missão específica da presidente Dilma Rousseff?

Pinheiro: A missão é fazer valer o quanto a imagem dos Correios é importante para os brasileiros. A ECT é a terceira instituição mais confiável do país, atrás apenas da Família e dos Bombeiros. Uma direção dos Correios tem que entender a importância do que significa isso para o Brasil. Só isso já diria tudo, mas a presidente quer que se fortaleça, aprimore e que mude o que deve ser mudado.

Valor: Por exemplo?

Pinheiro: O estatuto. O novo dá mais agilidade e transparência à empresa.

Valor: De que forma?

Pinheiro: O estatuto procura aproximar a empresa da sociedade. Nós seremos obrigados a partir de agora, como qualquer empresa de capital aberto, a publicar o balanço anual até o dia 30 de abril. Hoje, a empresa não é obrigada a fazer isso. O balanço ia para os ministérios das Comunicações e da Fazenda, além do Tribunal de Contas da União, mas não era publicado em jornais. Agora, será um balanço como o de uma empresa aberta, com parecer de auditoria externa e todas as informações cabíveis. Qualquer cidadão poderá consultar as informações da empresa.

Valor: Quando será publicado o primeiro balanço?

Pinheiro: A mudança no estatuto foi feita agora, então, em tese, só precisaríamos publicar o balanço em 2012, mas a diretoria já decidiu que publicará o balanço de 2010 este ano. Foi uma decisão gerencial para mostrar que a nova postura de gestão já está valendo.

Valor: Além dessa, quais são as outras mudanças promovidas pelo novo estatuto?

Pinheiro: O presidente da diretoria executiva deixará a presidência do Conselho de Administração, coisa que se faz em quase todas as empresas do Brasil e do mundo. O presidente continuará no conselho, mas não na presidência, como é comum nas empresas em que o controle acionário é do governo. A presidência do conselho será definida pelo Ministério das Comunicações. Está praticamente certo que o presidente do conselho será o ministro Paulo Bernardo. Isso mostra a importância que a presidente Dilma está dando aos Correios.

Valor: E os outros conselheiros?

Pinheiro: Quatro serão indicados pelo ministério; um outro será apontado pelo Ministério do Planejamento e o último será eleito pelos funcionários, conforme a Lei 12.353, sancionada pelo presidente Lula no fim do ano e que obriga empresas públicas e estatais a terem um conselheiro eleito pelos funcionários.

Valor: O governo cogita abrir o capital da ECT?

Pinheiro: Essa discussão não está colocada.

Valor: Não há necessidade de ir a mercado levantar recursos para investimento?

Pinheiro: Temos recursos em caixa. O investimento médio anual tem sido de R$ 250 milhões. Temos autorização para investir R$ 500 milhões em 2011. A ECT não pega recursos no Tesouro Nacional desde 1986. Faturou R$ 13,5 bilhões em 2010 e lucrou cerca de R$ 750 milhões. Outra novidade do estatuto é que passaremos a ter oito vice-presidências, em vez de seis. Uma é para tecnologia da informação e outra para a área jurídica. Isso também ajudará a fortalecer a governança da empresa.

Valor: O senhor mencionou que os Correios são a terceira instituição mais confiável do país, mas nos últimos anos houve escândalos de corrupção, como o do mensalão, envolvendo a estatal.

Pinheiro: Segundo pesquisa da MDA, feita em 2010, a ECT tem aprovação de 88,3% da população. A Família tem 92,5% e os Bombeiros, 90%.

Valor: Mas em 2002 tinha 93% e, em 2007, 95% de aprovação.

Pinheiro: É verdade. Ela era a segunda mais confiável, atrás apenas da Família, mas, ainda assim, hoje é muito bem avaliada.

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