Futuro do saneamento em debate hoje.

Com 65 anos de idade, o carpinteiro aposentado João Maria da Silva mora “solito, só com um cusco”, como ele próprio descreve, em um chalé simples do Bairro Margarida/Aurora, em Santa Cruz do Sul. De fala mansa, seu João não dispensa o uso de bombachas e aparenta levar uma vida tranquila. Mas as coisas seriam bem melhores para ele se não fosse o cheiro forte de esgoto que vem do Arroio do Moinho, que passa bem na frente de sua casa.

Por falta de canalização adequada para o esgoto residencial, o córrego acabou virando alternativa para o escoamento dos dejetos produzidos por dezenas de residências do bairro. O que um dia era um arroio cristalino, hoje tem status de sanga fétida. Desde que mora no local, há oito anos, João Maria briga para que o córrego seja canalizado, mas concorda que o ideal seria um sistema adequado de recolhimento de esgoto, separado da sanga. Ele deposita suas esperanças no novo Plano de Saneamento de Santa Cruz, sobre o qual tomou conhecimento pela imprensa. “Tomara que isso resolva nossa situação”, comenta.

Em estudo há mais de quatro meses, o Plano de Saneamento será tema hoje de uma audiência pública, marcada para as 18 horas na Câmara de Vereadores. Na ocasião, a equipe da Beck de Souza Engenharia, responsável pelo estudo, vai apresentar à comunidade suas conclusões e sugestões para qualificar o sistema de abastecimento de água e recolhimento de esgoto em Santa Cruz. A partir da audiência, entidades e cidadãos também poderão apresentar suas demandas sobre o tema.

Exigência do governo federal para a liberação de recursos aos municípios, o Plano de Saneamento tem, em Santa Cruz, um objetivo a mais. Ele vai estabelecer as metas a serem cumpridas pela empresa ou companhia que vencer a licitação da concessão do abastecimento na cidade, no próximo ano. Daí a importância que vem sendo dada à audiência pública desta quinta-feira – afinal, será o futuro do abastecimento que estará em debate.

A licitação do abastecimento, por sua vez, advém da não-renovação de contrato entre Prefeitura e Corsan. A decisão surgiu ainda no fim do governo de Helena Hermany (PP) e foi mantida pela prefeita Kelly Moraes (PTB). Apesar das divergências locais entre progressistas e petebistas, os dois governos demonstraram o mesmo descontentamento com o serviço da Corsan.

CARÊNCIAS

Kelly ficou ainda mais descontente após receber da Beck de Souza, no início da semana, as informações que serão repassadas na audiência pública de hoje. Segundo a prefeita, os técnicos concluíram que chega a 58% o índice de água tratada que é perdida devido a vazamentos na rede. O que mais impressionou Kelly, entretanto, foi o que encarou como falta de mais investimentos no recolhimento de esgoto. Conforme a prefeita, em 40 anos a Corsan fez apenas 16 quilômetros de canalizações de esgoto e, com isso, a cidade tem hoje 35 quilômetros de rede de coleta. No município, apenas 7% do esgoto é tratado. “É um absurdo”, avaliou a prefeita.

A carência de mais investimentos na área estaria por trás de situações como a enfrentada por seu João Maria, no Margarida, ou pelas vizinhas Vera Aiedo e Franciele Rodrigues, moradoras da Rua Antônio Kipper, Bairro Arroio Grande. As duas se queixam do mau cheiro e dos insetos e ratos que se proliferam no Arroio das Pedras, sanga que corre aos fundos das casas.

Alguns quilômetros antes de receber as águas já poluídas do Arroio do Moinho, o das Pedras recebe, ele próprio, altas doses de dejetos que saem direto de cozinhas e banheiros.

“O cheiro é horrível, principalmente no verão. Não vamos embora porque não temos recursos para arrumar um lugar melhor”, conta Franciele. Só na quadra onde ela e Vera residem, cerca de 15 residências despejam esgoto no arroio. Sem rede coletora, os moradores não vêm outra alternativa. “Entra governo, sai governo, e nossa situação não muda. Vamos ver se, como esse plano, a coisa melhora”, comenta Vera.

Serviço

O que
Audiência pública para conhecer e acrescentar demandas ao Plano de Saneamento.

Onde e quando ocorre
Na Câmara de Vereadores, a partir das 18 horas de hoje.

Como obter mais dados
Três relatórios que integram o Plano de Saneamento já estão concluídos e disponíveis no site da Prefeitura (www.pmscs.rs.gov.br). No primeiro aparecem mapas da rede e das bacias hidrográficas; no segundo, um estudo com a realidade atual do sistema; e, no terceiro, as estimativas de investimentos a serem realizados pela futura concessionária nos próximos 30 anos.

Saiba mais

•• O Plano de Saneamento prevê investimentos de R$ 51,9 milhões em abastecimento e R$ 152,5 milhões em coleta e tratamento de esgotos para os próximos 30 anos.

•• Dentre as metas a serem assumidas está a redução do desperdício de água para 30% em 2020 e para 25% até 2025. Além disso, o sistema de tratamento de esgoto deverá atender 95% da população até 2030.

•• O plano não chega a estabelecer os locais onde devem ocorrer melhorias de abastecimento ou ampliação da rede de esgoto. Segundo o procurador municipal Luciano Almeida, a consultoria responsável explicou que tais previsões antecipadas engessariam o plano. A ideia é realizar os investimentos levando em conta as áreas onde ocorre expansão populacional, o que seria impossível de prever com 30 anos de antecedência.

•• Conforme a prefeita Kelly Moraes, as melhorias serão realizadas sem que ocorra aumento das tarifas. A própria prefeita apresentou tal exigência, que foi incluída nos relatórios do Plano de Saneamento.

•• Os apontamentos do plano também vão balizar a licitação que escolherá, em 2011, a empresa ou companhia responsável pelo abastecimento em Santa Cruz. A Corsan também poderá participar e – especula-se – teria grande chance de sair vencedora. Nesse caso, entretanto, terá que colocar em prática as exigências do plano.

•• A Corsan, por sinal, tem anunciado investimentos. Este mês deve ser aberta uma licitação para obras de saneamento no valor de R$ 2 milhões. A companhia quer implantar uma rede de coleta de esgoto em parte do Bairro Belvedere, beneficiando loteamentos da região do Bairro Country e de Linha João Alves. Também vai duplicar um trecho da rede no Centro e interligar o sistema de esgoto do Bairro Schulz ao recalque da várzea do Lago Dourado. O investimento aumentará para quase 15% a coleta de esgoto na cidade. Segundo já anunciado pelo gerente local da Corsan, Luís Fernando Barbosa, com isso chega a quase R$ 8 milhões os investimentos realizados pela estatal em Santa Cruz nos últimos dois anos.

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