Fiep levará proposta ao governo esta semana

Roseli Loturco

Crítico intransigente da política cambial adotada pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva, que mantém o real valorizado e desestimula alguns setores da exportação, o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná, Rodrigo Costa da Rocha Loures, diz que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) só atende a 29% das necessidades de investimento em infra-estrutura do Paraná. Ele sugere ainda que o setor privado e o governo estadual devem se unir para elevar os aportes na região. A fórmula a ser adotada é por meio das parcerias público-privadas (PPP), que começaram a sair do papel e tiveram as primeiras concessões de rodovias federais aprovadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU) na semana passada.
Em relação aos planos estratégicos da indústria paranaense para este ano, Loures diz que está concluindo uma proposta de política industrial junto com a Confederação Nacional das Indústrias (CNI) e com apoio de universidades estaduais para os próximos dias. “Tivemos reuniões da diretoria na semana passada, e devemos nos reunir com o governo ainda essa semana para fechar o planejamento. Alguns pontos importantes entrarão na pauta do encontro, como a questão da inovação tecnológica, da capacitação profissional e do desenvolvimento regional.”
Seguem abaixo detalhes da entrevista.
Por mais que o PAC não tenha vindo na medida que a indústria do Paraná esperava, contempla o estado com obras importantes, como a pavimentação da Rodovia 153, a construção de uma ponte internacional sobre o rio Paraná-Foz do Iguaçu, além de obras de adequação da BR 116, ampliação da capacidade do corredor ferroviário do oeste do Paraná, enfim, há investimentos também previstos em aeroportos, de R$ 600 milhões. Eu gostaria de saber por que, apesar de todas essas obras, o PAC não agradou à indústria local? Nem ao setor de infra-estrutura?
Loures: Olha, é sim um avanço, visto que há mais de dez anos a esfera federal não investe no estado em infra-estrutura. Então, o fato de haver um compromisso em investir esses milhões significa, sim, um avanço. Agora, isso está aquém do que nós identificamos como necessidade do estado. Nós fizemos um levantamento detalhado que detectou que temos uma demanda de investimentos da ordem de R$ 3 bilhões. O PAC só atende a 29% das nossas necessidades.
Mas se o PAC atende a 29% das necessidades do Paraná em infra-estrutura, será que o governo do estado e o setor privado também não poderiam colaborar, estabelecendo, por exemplo, parcerias público-privadas (PPPs) nas obras estruturais para que o volume de investimentos fosse maior?
Loures: Nós vamos trabalhar nesse sentido, e tentar viabilizar o ‘Instituto das PPPs’, por exemplo, aqui no estado. É preciso também avançar nos marcos regulatórios e resolver os gargalos institucionais para avançar na questão das concessões. O que envolve negociações entre os setores privado e público, sempre junto com a esfera federal. É natural que vamos procurar explorar todos os espaços que ampliam a capacidade de investimentos em infra-estrutura no estado.
Então existe disposição da indústria em aumentar o aporte total a em infra-estrutura no estado?
Loures: Sim. Até porque é um imperativo. Veja, por exemplo, o caso da nossa produção agrícola, que é um forte pilar econômico do estado e adota sistemas produtivos, modernos. A infra-estrutura para escoamento e transporte das safras ainda é muito primitiva e atrasa o setor, comprometendo a competitividade dessa produção, por conta dos altos custos na área de logística. O custo global agregado, por exemplo, do transporte ferroviário, é de dez a quinze vezes mais barato do que o rodoviário. É aí que temos que investir. Então, os aportes necessários para isso são bem maiores do que os previstos no PAC. Estamos falando na extensão da estrada de Cascavel até Guaira; do contorno na região metropolitana de Curitiba; de uma segunda via até o Porto de Paranaguá; da conexão de Paranaguá e Santa Catarina. Esses são só alguns exemplos. Na área dos aeroportos também há a necessidade de se fazer bem mais do que o previsto, incluindo estender os investimentos em Londrina e Maringá. Assim como em rodovias também.
O TCU aprovou na semana passada o relatório final de análise para a concessão das rodovias 116 e 324. O edital deve sair em 30 dias. Além disso, até o final do ano, o governo prevê conceder a liberação de obras em outras BRs, e de vários anéis rodoviários, contemplando inclusive o Paraná, como já falamos. Os empresários já estão se organizando em consórcios para participar das concorrências?
Loures: Acho que sim. Há um enorme interesse do setor privado em participar dessa fórmula [PPP] de investimentos, e acredito que vão colaborar.
E existe algum consórcio já sendo formado que o senhor conheça?
Loures: Não que eu conheça, mas certamente há.
Os bancos parecem estar apostando que o setor privado irá engrossar o caldo dos investimentos em infra-estrutura, tanto que estão montando fundos direcionados ao financiamento do setor. Esse é também um bom termômetro de que teremos muitas obras pelo Brasil este ano, não?
Loures: Olha, esses fundos ajudam muito. Nos temos empreendedores que têm know-how para investir e não têm dinheiro. Então os bancos criam mecanismos financeiros para viabilizar essas obras.
Vocês também criaram, em novembro de 2006, um fundo de recebíveis das Indústrias do Paraná (FIDC). Qual o volume de captação e financiamento desses fundos? Têm juros atrativos?
Loures: Já há 43 indústrias interessadas pois o custo financeiro é baixo. Tem uma seguradora (Mapfre) que garante o crédito e faz a análise de risco da operação. O banco operador é o Bradesco. Então as empresas negociam as suas carteiras de duplicatas a receber. O fundo já foi classificado por uma agência de risco (Fitch Ratings) como excelente, AA+. O volume de captação está em R$ 35 milhões, mas pode ir até R$ 130 milhões, que deve ser atingido em dois ou três meses.
Tem destinação de recursos prevista no PAC para o Porto de Paranaguá para ampliação dos berços. O setor privado vai colaborar também nesses investimentos?
Loures: Têm os problemas dos berços, mas também os da dragagem e do baixo calado. Na questão da dragagem é preciso superar a burocracia, como o sistema de normatização que tem de ser destravado. O porto em si tem até recursos próprios para ampliar esses investimentos. Então, os embaraços são de natureza burocrática. Porém, não sinto que Porto tenha gargalos que dificultem aumento das exportações.
Vocês esperam um aumento das exportações para este ano?
Loures:Esperamos sim um aumento de produção e exportações para este ano. No setor agrícola, deve chegar aos 30%, mas isso deve recuperar níveis que tivemos há dois, três anos atrás.
E o dólar baixo? Não está preocupando os exportadores do Paraná?
Loures: O dólar baixo é um câncer para os exportadores. Nós tivemos um decréscimo de 0,21% nas exportações do estado em 2006, em relação a 2005. Mas com a elevação da produção agrícola (soja, açúcar e álcool, principalmente) e o aumento do preço das commodities no cenário internacional, além de motores e indústria automotiva, que também deverão exportar mais, a Balança Comercial do Estado ficará superavitária este ano.
O problema é que avançamos no mercado externo principalmente com os produtos in natura, de baixo valor agregado. O que se nota na nossa Balança é uma tendência a ser cada vez mais concentrada em itens que tem vantagens comparativas. Por outro lado, é cada vez maior o número de produtos industrializados que devem deixar de exportar por falta de competitividade no mercado internacional, em vista da valorização muito acentuada do Real.
O câmbio do jeito que está exclui quais setores da pauta das exportações?
Loures: Setores de móveis, vestuário e calçados. Muitas áreas ficam sem competitividade. O setor moveleiro, por exemplo, do norte do Paraná, reduziu em 80% suas exportações em 2006. E já se nota a presença de produtos chineses no Brasil nesta área. Grandes redes de varejo estão trazendo móveis da China.
Nota-se que a substituição do produto nacional pelo importado se dá também em algumas cadeias produtivas, não?
Loures:Claramente. As indústrias exportadoras, na maioria, são multinacionais e estão substituindo seus fornecedores locais por fornecedores estrangeiros, e muito rapidamente.
Qual o piso ideal para o câmbio para as empresas exportadoras?
Loures: Estudos feitos pelo economista Luciano Coutinho mostram que para o Brasil poder competir com a China no mercado externo, por exemplo, a relação deveria ser de R$ 4,7 para cada dólar. R$ 4. Mas deixando a China de lado, um câmbio competitivo seria de R$ 3,5. As exportações, porém, começam a ficar um pouco mais atraentes para muitos setores a partir de R$ 2,6, até para não ter tanto impacto na inflação. Isso sim, provocaria um maior crescimento e diversificação da nossa economia. Caso contrário, o País fica muito concentrado em poucos produtos onde tem vantagens competitivas.
Sr. Loures, o setor de energia do Paraná será contemplado com mais cinco usinas, das nove previstas para a região. Aqui duas perguntas. Primeira: esse reforço energético será o suficiente para o crescimento projetado pelo estado (a indústria paranaense registrou, em 2006, um aumento de produção de 6,61%)? E depois, quem serão as possíveis candidatas para exploração dos serviços de geração, transmissão e distribuição de energia?
Loures: A questão da energia é muito importante para o crescimento e é onde o Brasil tem vantagens comparativas em relação a outros países, com muitos recursos naturais. Mas o PAC é insuficiente nesta área, pois deixa de fora projetos importantes e estratégicos.

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