Estreito inicia operação 15% acima do custo previsto

Josette Goulart | De São Paulo

Uma das maiores hidrelétricas leiloadas ainda no governo Fernando Henrique Cardoso, a usina de Estreito, com 1.087 MW de capacidade, vai finalmente entrar em operação no próximo ano. Mas não sem ter causado uma série de transtornos para o grupo franco belga GDF Suez, empresa que liderou o investimento. O custo total da obra está hoje estimado em R$ 4,75 bilhões, cerca de 15% maior do que o valor previsto em 2008, já corrigido pela inflação. Além de mais cara, a usina foi ainda estopim para que os acionistas minoritários da Tractebel- subsidiária do grupo de capital aberto – questionassem a forma como a Suez transfere hoje os ativos na fase final de construção.
O presidente da Tractebel, Manoel Zaroni, diz que o aditivo de cerca de R$ 500 milhões que foi pago à construtora OAS se deveu a uma série de fatores que não era possível prever antes do início das obras. Quando as escavações foram iniciadas, as áreas que deveriam permanecer secas foram inundadas e logo se percebeu a necessidade de se fazer um rebaixamento do lençol freático. A bacia de dissipação, cuja função é amortecer o impacto da água extravasada pelo vertedouro, foi subdimensionada. Era prevista ter 30 metros e vai acabar com 100 metros de altura. Toda a obra teve ainda de ser estaqueada, o que exige mais concreto. “Fizemos o contrato por custo unitário e por isso tivemos de pagar mais”, diz Zaroni.

Quando as construtoras são contratadas por custo unitário, todo o risco da obra é assumido pelos empreendedores. No caso de Estreito, os sócios da Suez são os autoprodutores de energia Valee Alcoa. Além de Estreito, também as obras da usina de Jirau, que estão sendo feitas pela Camargo Corrêa, fazem parte de um contrato por preço unitário. Zaroni diz que é sempre um risco para o empreendedor, mas pondera que podem custar menos do que um contrato “porteira fechada”, como é hoje o da usina de Santo Antônio, feita pela Odebrecht.

Para fazer frente à sua parte no aditivo da usina, a Tractebel obteve um financiamento suplementar de R$ 350 milhões do BNDES, em outubro. A vantagem da usina de Estreito para a Tractebel é que a energia foi vendida a um preço de R$ 126 o MWh em leilão de energia promovido pelo governo federal em 2007. A usina já tinha sido leiloada no governo FHC, mas na época o modelo era diferente. Ganhava a usina quem oferecesse um maior preço pelo uso do bem público e elas iam à licitação mesmo sem licenciamento ambiental. Estreito ficou parada por cinco anos depois do leilão, por falta de licenciamento.

Com o novo modelo implantado no governo Lula, as usinas hidrelétricas são leiloadas somente com licenciamento prévio e vence quem vende a energia ao menor preço. Neste governo, também foi aberta a possibilidade de que as usinas leiloadas no governo FHC tivessem sua energia vendida em leilão. Foi assim que a Suez pôde vender energia a um preço tão bom. É quase 80% maior do que a empresa vendeu a energia de Jirau, mesmo sem correção. Outra vantagem é que as primeiras turbinas entram em operação quase nove meses antes do prazo para a entrega da produção ao mercado regulado, o que significa uma renda extra ao projeto.

A Tractebel assumiu Estreito pagando à Suez mais de R$ 260 milhões. A operação, entretanto, teve de ser aprovada somente pelos acionistas minoritários da Tractebel por exigência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A autarquia determinou que, de agora em diante, a Suez, como maior acionista da Tractebel e ao mesmo tempo dona dos empreendimentos que são transferidos à empresa, se abstenha de votar. O modelo de negócios da Suez prevê que a Tractebel compre os ativos depois que os riscos já estão mensurados. O próximo desafio será a transferência de Jirau, outro projeto polêmico que terá que ter o aval dos minoritários para ser incorporado ao portfólio da Tractebel.

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