Entrevista: Para Frederico Turolla, Brasil pagará caro para sediar os megaeventos esportivos

Dotar o País da infraestrutura necessária para sediar a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 custará ao Brasil a redução de recursos públicos de áreas sociais, como educação e saúde, afirma o economista Frederico Turolla, sócio da Pezco Pesquisa & Consultoria e professor do Mestrado em Gestão Internacional da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em São Paulo. Estados e municípios terão dificuldade de se endividar por causa dos limites da Lei de Responsabilidade Social, e a maior parte dos empreendimentos não é atrativa a ponto de atrair a iniciativa privada. “Esse é o preço que o País vai pagar para abrigar esses megaeventos”, diz o especialista, em entrevista ao DCI. –

Turolla lembra que na experiência internacional o resultado de megaeventos não é positivo, mas há algumas raras exceções. “Não tenho segurança em incluir o Brasil nas exceções porque em geral elas contaram com um planejamento muito efetivo, que começa cedo e envolve uma governança excelente de recursos – o que pode não ser o caso no Brasil”, afirma.

Conforme estudo da Pezco, levará muito tempo para que os gastos com construção da maioria dos estádios sejam recuperados com receitas exclusivamente vindas de jogos. No caso de Cuiabá, por exemplo, serão necessários três séculos e meio. Mas São Paulo, Porto Alegre e Curitiba são muito viáveis, por isso não deveriam contar com recursos públicos.

A seguir, a entrevista.

Roberto Müller Filho: Quanto de dinheiro será colocado para que Copa e Olimpíadas aconteçam no Brasil?

Frederico Turolla: O volume de recursos cresce com o tempo e isso ocorre em todos os países com má governança de recursos. Entre equipamentos esportivos e de mobilidade há uma clara prioridade para os primeiros; e os segundos poderão ou não ser executados na sua totalidade. Boa parte dos recursos que serão alocados para a Copa são verbas que, mesmo sem o evento – e o mesmo raciocínio vale para as Olimpíadas – seriam destinadas a outras áreas. Existe – e isto também ocorre em todo o mundo – um deslocamento de recursos para a Copa. Em países onde esses eventos demandam grande volume de verbas públicas, alguns setores perdem com a Copa do Mundo, como saúde e educação.

RMF: Isto acontecerá no Brasil?

Turolla: Sim. Estes setores serão perdedores por aqui com a Copa. Haverá alocação de recursos para infraestrutura esportiva, mobilidade, transportes em geral, mas isso fará cair a destinação de verbas públicas para saúde e educação, principalmente. O Brasil criou limites para evitar episódios de irresponsabilidade fiscal – o que inclui desde a Lei Complementar 101, ou Lei de Responsabilidade Fiscal, que colocou limite nos endividamentos dos estados e dos municípios. Assim, os recursos que serão alocados em maior volume para os megaeventos esportivos possivelmente deixarão de ser gastos em outras finalidades, já que não há espaço para o crescimento da dívida pública no País.

Como se trata de eventos de longo prazo, eventualmente estas alocações já estavam feitas nos Planos Plurianuais de Investimentos, os PPAs. Mas muita coisa vai aparecer no caminho dos orçamentos anuais, e uma parcela dos recursos terá de vir de outras áreas. Esta realocação interna está prevista na literatura internacional. Várias obras que tratam do impacto econômico de megaeventos esportivos indicam isso.

RMF: Poderia falar mais sobre o resultado de megaeventos esportivos?

Turolla: Esta é uma questão interessante, porque, de certa forma, ela resume tudo. O resultado de megaeventos, na literatura internacional, não é positivo, com algumas raras exceções. Mas eu não teria segurança em incluir o Brasil nas exceções porque em geral elas incluem um planejamento muito efetivo, que começa cedo e que envolve uma governança excelente de recursos – o que pode não ser o caso no Brasil.

Liliana Lavoratti: Quais casos foram estes? Barcelona?

Turolla: Sim, Barcelona. Não me recordo de outros.

LL: Por que você acha que o Brasil não vai ter um bom retorno dos gastos feitos para a Copa e as Olimpíadas?

Turolla: O Brasil tem algumas características peculiares, especialmente no que diz respeito ao fato de sediar a Copa. Quando se entra nos estudos de viabilidade, verifica-se que: o lado das receitas é relativamente pequeno frente ao de países europeus que sediaram megaeventos. A renda que vai dar suporte aos empreendimentos é relativamente pequena, ou seja, os empreendimentos que serão construídos – em especial no caso dos equipamentos esportivos – vão gerar uma receita relativamente pequena. Do lado dos custos, temos problemas, como os procedimentos de contratação pública. São exigentes, caros e, em alguns casos, inefetivos em termos de custo-benefício. A Lei das Licitações cria regras que exigem, tanto do lado público como do privado, mecanismos de contorno que acabam encarecendo os projetos e, eventualmente, não trazem o controle esperado.

LL: Mas o Brasil é um país que está apenas começando a explorar seu grande potencial turístico. Isto não será um legado?

Turolla: A expectativa é que o fluxo turístico da Copa mude o patamar do turismo receptivo no Brasil em razão da divulgação que o evento traz, mas o custo será muito alto para tanto. Teríamos de ver como sediar a Copa influenciou o turismo em outras nações. E a resposta em geral é que a influência não foi muito grande. Há casos em que, na verdade, o país-sede desses eventos perdeu turistas devido ao congestionamento. Quem não gosta de futebol não vai para país que vai sediar Copa. É impressionante como o Brasil se tornou conhecido nos aspectos soft de sua marca, como futebol, jeito de viver e culinária. Mas não temos a mesma fama nos aspectos corporativos de nossa marca. O desafio seria mostrar nossa capacidade de organizar, de empreender, de gerir, e nossa competência nos aspectos corporativos. Este é o legado que de fato nos faria bem. Lembro que o Michael Porter [professor da Harvard Business School e autor de diversos livros sobre estratégias de competitividade] veio ao Brasil e escreveu em uma revista que ficou escandalizado com a desorganização do aeroporto onde ele chegou. Ou seja, se recebermos 1 milhão de turistas ou 10 milhões de turistas, da forma como estão organizados os aeroportos brasileiros, o impacto disto sobre a marca Brasil vai ser negativa.

LL: A infraestrutura aeroportuária é nosso grande gargalo?

Turolla: É nosso cartão de visita, é onde o visitante passa seus mais difíceis momentos, considerando que os voos no Brasil são de longa distância pelo tamanho de país continental. Mas eu sou otimista quanto aos aeroportos por conta da feliz coincidência das eleições presidenciais com a Copa, em 2014. Tendo em vista que um evento negativo no item aeroportos teria uma repercussão importante na próxima corrida presidencial, acredito que prevalecerá a vontade política, como já está sendo mostrado, para equacionar o problema dos aeroportos e chegar a 2014, se não com aeroportos à altura, ao menos com algo minimamente organizado para receber os turistas. Sou menos otimista quanto à mobilidade urbana, que não terá a mesma atenção que os aeroportos.

RMF: Sediar a Copa e as Olimpíadas agrega valor à imagem do País?

Turolla: Sim. Neste sentido, o Steven Levitt e o Stephen Dubner, autores do Freaknomics, escreveram que o Brasil deveria compreender que, ao sediar a Copa, está na verdade pagando pelo direito de sediar um evento interessante, nada mais. Se de fato é uma vontade popular, então vamos pagar por ela, apenas. Economicamente, em termos de crescimento, de desenvolvimento, não é uma aposta interessante. Mas, dado que fizemos a opção de sediar estes eventos, temos de fazer direito. E aí os projetos têm de ser bem governados, têm de ser justos.

RMF: Você é contra gastar dinheiro público na construção dos estádios?

Turolla: A Pezco fez um estudo com base nos primeiros dados de investimentos nos estádios. O investimento foi dividido pela receita da cidade com os recursos gerados pela cobrança de ingressos de jogos. O resultado desta conta é medido em anos. Ou seja, quando se investem R$ 100 milhões para uma receita de um, o resultado desta conta é de 100 anos. Houve uma das cidades-sede em que a razão investimento-receita deu três séculos e meio: Cuiabá. Para que aquele investimento seja recuperado com receitas exclusivamente vindas dos jogos, seriam necessários 350 anos. Da receita tem de ser descontado o valor a ser compartilhado com o clube, os custos com manutenção, seguros e os riscos. Há casos em que talvez fosse mais adequado falar em um milênio para que ocorra o retorno. Em outras palavras: para viabilizar um empreendimento como este, não há outra forma a não ser inserir recursos públicos. Este mercado independe da Copa do Mundo. O que a Copa faz é dar um impulso a ele, até porque a receita da Copa não pertence aos projetos, ela é da Fifa. É por conta disto que os empreendimentos da Copa deslocam outros investimentos públicos importantes em áreas prioritárias.

RMF: E no caso do Itaquerão, em São Paulo?

Turolla: Fizemos o mesmo cálculo para todo o mercado de futebol de São Paulo. Em São Paulo esse mercado é muito grande, tem vários eventos simultâneos com times grandes. A razão investimento-receita de São Paulo é de dois anos falando no caso da receita da cidade com a venda de ingressos para jogos de futebol, não incluindo receitas com shows, direitos de uso do nome etc. Isto significa que o número de cidades-sede é excessivo e que para viabilizar os projetos é necessário um volume significativo de recursos públicos. Dá para antever quais as cidades-sede cujas obras não deveriam ter dinheiro público: São Paulo, Porto Alegre e Curitiba.

RMF: Por quê?

Turolla: Porque a razão tempo-receita nestes casos é pequena e, possivelmente, estes empreendimentos se sustentariam pela própria receita do projeto. Nestes casos nem precisaria de PPP: só seriam necessários aportes privados, como está ocorrendo em alguns lugares. Por exemplo: até agora, a Arena do Grêmio, em Porto Alegre – aliás, o melhor mercado para futebol do Brasil. Por sinal, o grande beneficiário desta Copa do Mundo em termos esportivos será Porto Alegre. O segundo é São Paulo, embora seja um mercado já muito ocupado, onde é preciso ter eficiência para entrar. Outro mercado muito bom é Curitiba. Belo Horizonte é melhor do que o Rio de Janeiro pelas nossas contas, o que é surpreendente.

RMF: O dinheiro virá dos cofres municipais, estaduais e federal?

Turolla: Acho que das três fontes, mas a maior parte virá dos governos estaduais. Os projetos estão recebendo recursos públicos via financiamento do BNDES. Nesses casos, o recurso público é o subsídio dado nesses empréstimos, está no diferencial de custo com que a União terá que arcar nas suas captações frente às taxas de empréstimo para estes projetos. Já nas cidades-sede onde o projeto não tem viabilidade em si, caso da maioria, aí os recursos públicos entram diretamente para que haja de fato o projeto.

RMF: Você acha que o Brasil sai da Copa e das Olimpíadas como um gestor melhor do que entrou?

Turolla: Certamente. A Copa e as Olimpíadas têm impactos setoriais muito importantes. Para o País é um bom negócio? Certamente não. Mas existem muitos setores que serão beneficiados e terão oportunidades de negócios ímpares com estes eventos. De maneira geral, o negócio de eventos e turismo sai beneficiado. Vai haver mesmo transferência de tecnologia, investimento direto estrangeiro, aprendizado, certamente isto vai agregar ao País. E isto está do lado dos ganhos. A literatura internacional mostra isto: eventos como estes têm grandes ganhos e grandes perdas. Temos na mídia seguidas demonstrações do lado dos ganhos: são lindos, fantásticos. O que se omite em geral são as perdas, o que se deixa de fazer. E são várias coisas.

RMF: O exemplo de outros países que sediaram esses eventos não é bom?

Turolla: Não. Não há um histórico positivo referente a sediar grandes eventos internacionais, exceto alguns poucos casos. O de Barcelona é o mais vistoso. Este é o caso oposto. Barcelona teve impacto positivo de uma forma geral, duradoura. Mas é uma exceção. Já a Grécia é um caso emblemático, que até pode se tornar um fantasma a nos assombrar depois de 2014. Estamos com uma trajetória parecida com a da Grécia: realizou seus jogos, construiu uma infraestrutura cara, com custos crescentes, e uma vez que acabaram as Olimpíadas teve uma explosão da dívida pública. Esta explosão só não causou um problema de insolvência imediata ao país porque ela caiu exatamente no momento de bonança, um momento maravilhoso da economia mundial, que era entre 2003 e 2008; isto aconteceu em 2004. No primeiro sinal de fraqueza da economia mundial, a Grécia mostrou sua insolvência, que, aliás é o que preocupa hoje todos nós.

LL: Você vê o risco de isto acontecer com o Brasil?

Turolla: Há este risco. Por isto a governança dos recursos públicos tem de ser equacionada. Por exemplo: usando parcerias público-privadas, as PPPs. Isto seria importante para gerir recursos. Certamente o ideal seria melhorar radicalmente a gestão pública brasileira – isto, sim, é um desafio para o nosso desenvolvimento. A PPP não é garantia de sucesso, mas eu não tenho dúvida de que a PPP é um instrumento muito mais efetivo para garantir o valor pelo dinheiro do recurso público que os instrumentos tradicionais de contratação.

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