Assoreados, Tietê e Pinheiros transbordam

Bruno Paes Manso e Renato Machado – O Estado de S.Paulo
Os Rios Tietê e Pinheiros acumulam atualmente pelo menos 4,2 milhões de metros cúbicos de sedimentos, argila, areia e entulho, volume que corresponde a 350 mil caçambas de caminhão. O assoreamento dos dois principais rios da Bacia do Alto Tietê, que dificulta a vazão e reverte os efeitos das obras de aprofundamento das calhas do Tietê iniciada em 1998, foi uma das causas das enchentes ocorridas ontem em São Paulo.

No anúncio de medidas a serem tomadas para reduzir o impacto das chuvas, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) definiu ontem como medida urgente a retirada desses 4,2 milhões de m³ em detritos. Segundo o governador, 2,1 milhões de m³ estão no Tietê; mais 580 mil m³ ficam entre a Barragem da Penha e o Córrego Três Pontes, na zona leste. Já no Rio Pinheiros há 1,5 milhão de m³ em sedimentos. “O desassoreamento é eterno. Se passar um verão sem desassorear, tem 500 mil m³ de areia, sofá, geladeira, papel, sujeira dentro do rio. Todo verão tem 500 mil m³”, disse o governador.

No ano passado, foi retirado dos rios só 1 milhão de m³, a um custo de R$ 64 milhões. Para alcançar uma meta quatro vezes maior até o fim deste ano, Alckmin pretende reduzir o custo do desassoreamento pela metade, com a negociação de areia (40% do material retirado dos rios) e a redução da distância dos depósitos que recebem os detritos.

Piscinões. Outra causa importante das enchentes que se repetem no verão da metrópole é a lentidão nos investimentos nos piscinões. Desde que o Plano de Macrodrenagem foi concebido no Departamento de Água e Energia Elétrica (DAEE), em 1998, foram construídos 45 piscinões dos 134 previstos para a Grande São Paulo, suficientes para armazenar 9,5 milhões de m³ de água.

Os piscinões funcionam como reservatórios de água artificiais – eles evitam que córregos transbordem e despejem água em excesso no Tietê. Em parceria com a Prefeitura, Alckmin prometeu construir mais dois piscinões: o Olaria, na Bacia do Pirajuçara, e o Jaboticabal, na divisa com São Caetano do Sul. A licitação do primeiro será feita neste ano e o segundo deve ser entregue até dezembro. Na divisa com Guarulhos, na margem direita da Via Dutra, estão previstos o desassoreamento e obras em canais para ampliar em 950 mil m³ a capacidade de reserva de águas na região. “Também autorizamos mais três bombas no Rio Pinheiros, que devem ser instaladas em dois anos com investimentos de R$ 190 milhões. Com isso, vamos aumentar em quase 60% a capacidade de bombeamento do Pinheiros para a Represa Billings”, afirmou Alckmin.

Médio e longo prazo. Na coletiva de ontem, na sede do Departamento de Águas e Energia Elétrica de São Paulo (DAEE), à qual compareceu em companhia do prefeito Gilberto Kassab (DEM), o governador se concentrou nas medidas de médio e longo prazos. E pouco avançou nas iniciativas urgentes, a serem tomadas para evitar as cheias ainda deste verão. Restringiu-se a anunciar a oferta de 50 caminhões para limpar bueiros e dez caminhões-pipas para retirar a lama que ficou pelas ruas. Em benefício das vítimas das chuvas, foi anunciado o plano Novo Começo, que prevê o pagamento de R$ 1 mil para famílias que vivem em área de calamidade e perderam seus bens em enchentes.

Para os próximos quatro anos, Alckmin promete atenção ao projeto do Parque das Várzeas do Tietê, que visa a diminuir a ocupação das margens do rio entre o município de Salesópolis e a Barragem da Penha, na zona leste. Serão investidos US$ 200 milhões – US$ 115 milhões do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O parque terá 75 km de extensão e 107 km² de área. “O BID aprovou. Só falta assinar o contrato”, disse o governador.

Ainda entre as medidas de prazos mais longos, a urbanização excessiva e a consequente impermeabilização do solo são outros fatores presentes em qualquer análise sobre a causa das enchentes. “São Paulo está chegando no limite. A chuva trava no solo e passa a escorrer, sem ser absorvida”, diz o engenheiro Júlio Cerqueira César Neto, do Instituto de Engenharia (IE). Os cálculos apontam que 90% do solo paulistano está urbanizado.

Ações como pisos que favorecem a drenagem e calçadas sustentáveis são apontadas como alternativas para a permeabilização, mas não para resolver o problema das enchentes como um todo. “Não dá para dizer que não é útil. Tudo o que se faça é bom e essas ações melhoram as condições. Mas são ineficientes em relação ao tamanho do problema. São Paulo está no limite.”

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