Gestão Madura

Ediane Tiago

Bem estruturadas e mais competitivas, as empresas de pequeno porte têm mostrado que a boa gestão pode conferir muito mais do que aumento na receita, permitindo crescimento sustentável e consolidação dos negócios. A busca pela excelência, com o pé firme na gestão, é uma importante transformação que faz parte da rotina de Sônia Lúcia Pereira de Moura, superintendente do Consórcio Nacional de Licitações (ConLicitação), portal que divulga informações sobre negócios públicos para empresas em todo o Brasil. Com sede no bairro do Butantã, o ConLicitação, fundado em 1999, passou por dificuldades variadas até firmar seu nome no mercado. “No começo é assim mesmo, a gente serve cafezinho e participa de todas as etapas do trabalho, e nem sempre consegue priorizar a gestão”, comenta Sônia.

Ela afirma que é muito comum o dono de uma pequena empresa delegar, por exemplo, o controle fiscal e financeiro para o contador e tocar o negócio sem preocupar-se com isso. Para ver sua empresa crescer, Sônia percebeu que teria que se dedicar mais à gestão e foi atrás de cursos de formação no Sebrae para aprender como lidar com o negócio como uma verdadeira executiva. O esforço rendeu a Sônia, no ano passado, o terceiro lugar do Prêmio Mulher de Negócios, organizado pelo Sebrae, e ainda uma evolução de 50% em sua empresa entre os anos de 2003 e 2007. “Busquei formação em gestão para entender como minha empresa poderia melhorar, conquistar mercado e ser mais competitiva. Agora pretendo investir em um módulo de empreendedorismo para ampliar minha visão estratégica”, afirma.

É um sintoma de que micro e pequenas empresas estão aproveitando os bons ventos do crescimento econômico para amadurecer e consolidar seus negócios. Na visão do Sebrae, o melhor preparo desses empreendedores significa maior taxa de sobrevida das empresas. Dados da última pesquisa realizada pela entidade revelam que a taxa de sobrevida do segmento foi de 78% entre os anos de 2003 e 2005, bem maior do que o levantado no triênio 2000/2002, quando o índice foi de 50,6%. “O grau de escolaridade dos donos de pequenos negócios está maior, 76% deles estão entre os que concluíram a universidade ou possuem curso superior incompleto”, revela Ênio Pinto, gerente nacional de atendimento individual do Sebrae.

A relação entre o tempo investido em formação e longevidade das empresas pode ser comprovada pela experiência de Áurea Xavier, presidente da Borda Já Bordados Industriais, com fábrica em Santa Cruz do Capibaribe (PE). Antes de começar o negócio, em 1988, ela teve outras quatro empresas, que fecharam as portas pouco tempo depois de inauguradas. “Sem conhecimento de gestão e sem entender o mercado, não é possível desenvolver uma empresa”, afirma. A virada de mesa veio com cursos rápidos de formação no Sebrae e na busca por apoio em associações de classes. “Hoje a Borda Já é a maior do Nordeste em seu segmento e sua excelência em gestão é premiada”, conta Áurea, que angariou um prêmio em gestão cedido pelo Sebrae nacional.

Segundo Ênio Pinto, o aumento no grau de escolaridade resulta na busca por melhor formação e por técnicas para gerir o negócio. Na área de consultoria, a entidade também viu a procura crescer. O número de empresários que buscou o apoio do Sebrae subiu de 4% do total de associados, registrado em 2002, para 17%, em 2005. Esse crescimento ocorreu principalmente em assessorias nas áreas de gestão empresarial, gestão financeira e de recursos humanos. “Os empresários querem entender o fluxo financeiro para investir bem os recursos, da mesma maneira que precisam conhecer o mercado para traçar sua visão de futuro. Quem quer crescer, precisa dominar a gestão”, aconselha.

A contratação de serviços de consultoria, aliada à formação, é a receita da Zagonel Duchas. Depois de chegar à beira da falência, a empresa – sediada em Pinhalzinho (SC) e que hoje emprega 90 pessoas – não dispensa ajuda profissional na hora de traçar seus planos. Luiz Zagonel, diretor comercial, admite que a falta de gestão deixou a companhia em uma situação muito difícil. Seriamente abalados pelo Plano Collor (1990), os irmãos Zagonel ficaram endividados e sem perspectiva. A salvação veio da boa vontade de um amigo que empenhou os próprios bens para conseguir um empréstimo e salvar a empresa. Com o empréstimo, veio a advertência: “Se vocês gerirem tudo direitinho, pagam rápido o que devem e ainda crescem”. Cientes do desafio, Luiz e seu irmão buscaram capacitação em gestão e deram a volta por cima. “Em menos de dois anos, pagamos tudo e já estávamos com lucro”, lembra.

Em uma nova fase, que teve início em 1999, os irmãos começaram a investir em serviços de consultoria para melhorar a gestão dos negócios e as técnicas de produção. Desde então, não pararam de utilizar ajuda profissional. Como resultado, assistiram a uma evolução meteórica da Zagonel, que em 2007 cresceu 45% e tem a meta de 30% de crescimento neste ano. “Além da administração, investimos em processos e adquirimos certificados ISO 9001, melhorando toda a cadeia de produção”, lembra Luiz.
O envolvimento de profissionais na gestão também ensinou os irmãos a delegar poder e a compensar a falta de formação com serviços especializados. Com isso, criaram-se oportunidades e novos cargos na empresa. “Entendemos que é preciso dar chances para nossos funcionários e capacitá-los. Agora eles enxergam que têm um plano de carreira”, afirma Luiz.

Com maior domínio da gestão, a rotina de planejamento também entrou para a agenda das empresas de pequeno porte. Na Evello, consultoria de gestão estratégica de vendas, o ano começa com uma reunião de avaliação e de planejamento. A equipe olha para todos os aspectos dos negócios, avalia suas conquistas e admite as deficiências, buscando meios de superá-las. Os sócios, um físico e outro analista de sistemas, buscaram no mercado cursos de matemática financeira, gestão das finanças, marketing e gestão administrativa, dominando conhecimentos capazes de identificar erros em qualquer um dos aspectos da gestão.

Para eles, a melhor alternativa foi aplicar o que aprenderam com o produto que oferecem: gestão estratégica de vendas. “A gestão é um conceito amplo e diferenciado em cada parte de uma empresa. É difícil enxergar esta divisão em equipes pequenas, mas ela existe”, avisa Paulo Lebrão, sócio da Evello. Ele explica que muitos empresários mantêm o foco em seu produto, investem em processos e não enxergam que também precisam investir em na administração da receita, aplicando em sua equipe de vendas. “O produto é ótimo, mas a empresa não vende. Isso é um problema de gestão, que denuncia quem não conhece o mercado e nem o cliente.”

É justamente essa falta de pensamento sistêmico uma das deficiências mais comuns nas empresas de pequeno porte, aponta a Fundação Nacional da Qualidade (FNQ). De acordo com Michal Gartenkraut, presidente-executivo da instituição, qualquer empresa possui um conjunto de componentes que devem atuar de forma integrada e que, portanto, merecem atenção diferenciada. “O inter-relacionamento entre os diferentes departamentos é um conceito difícil de incutir em uma pequena empresa. Mas que pode determinar o seu sucesso”, afirma Gartenkraut.

Francisco Guglielme, consultor e professor da Fundação Getúlio Vargas e da Fundação Instituto de Administração (FIA) acredita que a gestão das pequenas vem melhorando e o mercado é que vai ditando essas regras. Para ele, o conhecimento sobre o mercado é um fator que diferencia concorrentes e que impulsiona o crescimento, somando novas preocupações para empresários que precisam cuidar do dinheiro, da produção e de suas equipes. “É necessário olhar para fora, ir ao mercado, conhecer o cliente”, aconselha.

A busca pela excelência em empresas de pequeno porte é uma corrida que já ganhou lugar nas estatísticas. Segundo Cláudio Gaspal, diretor do Movimento Brasil Competitivo, o número de empresas de pequeno porte que se inscrevem nos prêmios estaduais de qualidade tem crescido, o que demonstra um grande avanço. “Para competir, elas precisam avaliar seus desempenhos e suas práticas”, confirma.

De acordo com a entidade, no ano passado, 30 mil empresas de pequeno porte inscreveram-se nos prêmios estaduais e 5 mil delas concluíram todo o processo de avaliação. A amostra é importante para identificar que os empresários buscam excelência em todos os pontos, inclusive na gestão ambiental. “O processo de auto-avaliação ainda assusta boa parte das empresas, por isso existe essa diferença entre o número de inscritas e avaliadas. Mas a procura demonstra a preocupação com a boa gestão”, afirma Gaspal.

Fonte: Jornal O Valor

    Pesquise as licitações no seu segmento agora

    Preencha seus dados para concluir a pesquisa

    Confira quantas oportunidades de venda existem no momento.
    Digite nome, e-mail e telefone para ver os resultados.





    Oportunidades de negócio esperando por você

    Aproveite o nosso período de teste gratuito e tenha sucesso no mercado de licitações.

    Licitações e dispensas